NOTA  
                                                                 
    No que respeita a Antadora  isto  foi  o que  se  passou  de
    Julho de 1972 a Setembro de 1973.
    Estes  dados  foram  retirados  de notas feitas na época por
    Outeiro e aqui transcritas por Beja.
    Há  de  certeza  mais  episódios  e mais  dados dignos  de
    registo  para  contar, para  isso é necessário a colaboração
    de quem os viveu para poderem ser aqui narrados.
    Só assim podemos ter a história completa da C. CAV. 3559.
   
                                 ANTADORA 73                                 
                       O dia a dia da C. CAV. 3559
                                
     Após a estrondosa  passagem  de ano, estivemos  durante  bastante 
  tempo  sem  novidades  do  inimigo. O   tempo  decorria   calmo  entre 
  operações,  colunas  para  reabastecimento  e caça. Caçavamos  para
  ter alguma carne  mesmo fresca  e saborosa, como é a da pacaça,  do 
  porco  espinho  e  mesmo  da  palanca. Apanhou-se  também algumas
  cobras,  um lagarto e  até  um tatu todos  eles  tiveram  honras de um 
  belo  petisco, mas só  para alguns como  é  evidente. Andavamos  tão 
  bem  que  quase  esquecemos  que  estavamos  em  zona  de  guerra,
  mas  a Frelimo fez  questão  de  nos  lembrar  presenteando-nos  com 
  mais  um  ataque  no  dia  25 de Março  na  habitual  "hora maconde", 
  cerca   das  17.45.  Nesse    ataque   porém,    os   guerrilheiros   não
  trouxeram  só  o  habitual   morteiro  82 ,  muniram-se   também  com 
  canhão   s/recúo,  roquetes   e  armas   automáticas.  O  ataque   que
  fizeram  nesse   dia  foi  mesmo  com  a  intenção   de   entrarem   no  
  aquartelamento. Durante todo o ataqu e foram disparadas dezenas  de
  granadas quer de  uma parte quer de  outra, apesar disso e felizmente
  não  conseguiram   os  objectivos,  só   tivemos   danos  materiais  no
  depósito  de géneros  e nas antenas de rádio. Nesse  dia  salientou-se 
  um  camarada  de  alcunha  o   "Velho Misérias"  que,  durante  todo
  ataque, esteve  em cima de  um dos  abrigos  com um  morteiro de 60 
  disparando  sem  cessar, arris-cando-se a ser alvejado.
    Esse  foi, sem dúvida, o maior ataque que a companhia  sofreu .
    No  dia 7 de Abril, um grupo  saíu para uma operação, passando  por 
  um   trilho  já  batido,  accionaram  uma   armadilha. Na  sequência da 
  explosão   f icaram   feridos  Henrique  Pinheiro   e  Acácio  Assunção,
  vindo o ultimo a falecer devido à gravidade dos ferimentos.
    Mais  algum   tempo   decorrido   entre    alguma  futebolada,   umas 
  paródias  e sem contar  com  as operações  que íam decorrendo  com 
  pessoal   e    armamento   capturado   nas    machambas.  Eis  senão  
  quando  sofremos outro  ataque, era mais ou menos  11.30  da manhã
  do dia  16  de  Maio,  quando  os morteiros se  fizeram ouvir.O  ataque 
  durou   cerca   de  20   minutos,  mas   sem   consequências  pois  as
  granadas  cairam  todas  fora  do aquartelamento. Este  ataque  quase 
  deu  para  brincar,  pois dava para ouvir  as granadas roçarem na copa  
  das   árvores,   inclusivamente  ouve  até  um   episódio  engraçado. O
  condutor  que  andava  com o  Unimog  a  recolher  o  lixo, ao  ouvir  a
  rajada  de   metralhadora  que   era  o  aviso   para  ataque  dado  pelo 
  sentinela, saltou  da viatura para se recolher  no abrigo deixando-a em
  andamento.
     A 5 de Julho,  às  14 horas, mais um  ataque  com morteiros,  desta
  vez foi  chamada a força aérea  que  bateu  a zona pondo o inimigo em
  fuga, que deixou algum material abandonado.
     Passado  um  mês   no  dia  5  de  Agosto  novo  ataque   e  o  mais
  pequeno  de   todos,  durou  somente  3  a  4  minutos,  no  entanto foi
  aquele  que   poderia  ter  tido  consequências  mais  trágicas,  pois  a  
  segunda granada  atingiu em cheio o posto de transmissões  segundos
  depois  do  pessoal  que  lá se  encontrava ter saído para  o abrigo. Os
  danos foram  enormes tanto no material de rádio como  nos objectos e
  roupas pessoais..

    Estávamos  em  Outubro de 1973, quando  recebemos  a companhia
  checa  que nos  vinha render.
     Depois de alguns dias, poucos  para a passagem do aquartelamento
  e respectivo material à  nova companhia, teve a 3559 ordem de marcha 
  para uma nova localidade. Foi a 15 de Outubro que a companhia rodou
  de  Antadora  zona 100%  para Mecuburi zona 50%. Era  a  passagem
  do inferno para o céu, ali já  só poderíamos ouvir falar  na guerra  e não 
  vive-la.Era o tempo do descanso. No entanto ficou ainda em  Antadora
  um pequeno destacamento que iría fazer a sobreposição, ou  seja, dar 
  instrução aos que nos renderam.
     Durante esse periodo houve alguns episódios pitorescos derivados à
  falta de experiência  dos checas, em contraste  com  a  veterania  dos
  «V.C.C. cuja tradução todos sabem...».
     Os dias foram  passando, mas parecia que  se tinham esquecido do 
  grupo  que  ficara  em  Antadora. Foi  graças  ao  então  coronel  Pires
  Veloso que,  ao  visitar  a nova  companhia e inteirar-se da situação do
  grupo,  mandou  vir, nesse  mesmo dia, um avião, no qual voaram para 
  Mueda  e  depois  para  Nampula.  Não  sem  antes  passarem  alguns 
  sustos,  como  a aterragem de  emergência do  Dakota e troca por um 
  Nordatlas que tinha de levantar voo com as luzes apagadas, para evitar 
  ser atingido pelas antiaéreas da Frelimo no Vale de Miteda.